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TOCA RAUL !!! E por que não Paulo Coelho??

Recordo minha entrevista com o escritor Paulo Coelho em Tóquio, quando veio lançar a tradução para o japonês de O Diário de um Mago e falamos sobre Raul Seixas e Ernest Hemingway


Último encontro da dupla: Raul Seixas com Paulo Coelho no Canecão, em 21 de abril de 1989; quatro meses depois Raulzito morreria (foto: André Barcinski)


Recém-chegado ao Japão e repórter novato do Jornal Tudo Bem, dirigido à comunidade brasileira, recordo de uma noite em 1995, quando o editor-chefe me encarregou de entrevistar Paulo Coelho. O escritor estava em Tóquio para lançar a tradução em japonês do seu livro O Diário de um Mago.



Mas por que fui lembrar agora do Maluco Beleza e do Paulo Coelho, seu parceiro de composições?

É porque recentemente tenho conversado com o amigo Carlos, na hora da cervejinha, e sempre falamos de Raul Seixas, um dos nossos grandes ídolos. Conto a ele sobre os três shows que presenciei do Raul no auge, quando usava boina vermelha, e na decadência, quando fez dupla com Marcelo Nova e nem conseguia cantar Maluco Beleza, esquecendo da letra.


Capa do disco Gita, de 1974 (esq.); Raul e Marcelo Nova em Caxias do Sul, 1989 (foto: Carla Pauletti)

Contei ao Carlos sobre um amigo chamado Leme, que morreu vítima de uma facada, quando cantava Raul Seixas para uma garota, mas chegou o namorado ciumento dela e meteu-lhe a peixeira!

Também falei sobre outro amigo chamado Mateus, com quem ia assistir jogos do Corinthians e São Paulo no Estádio Morumbi! Após o jogo, tomávamos uma geladinha no Rei das Batidas (foto abaixo), pertinho da Universidade de São Paulo.



Mas eu tinha de pegar o último ônibus para casa e saía às pressas. E aconteceu um monte de vezes: eu chegava em casa e recebia um telefonema do amigo Mateus:

— Osny!!! De novo, você foi embora e já sabe quem apareceu aqui no bar né?

— Raul chegou?

— Chegou!!! Só foi você ir e ele chegou …

Raul Seixas morava perto do Rei das Batidas. Na época não existia celular, era orelhão de calçada. Se existisse celular, bem que o Mateus poderia ter passado o aparelho e eu teria conversado com o Raul Seixas, será que não?

O amigo Carlos gosta desses meus “causos” e mostra com orgulho seu cavanhaque semelhante a do Paulo Coelho. Como ainda não falei a ele sobre esta minha entrevista com Paulo Coelho, relato aqui no Blog e assim compartilho com todos os meus amigos leitores.



O mago, o bruxo, o esotérico, o camelô de livros, o alquimista Paulo Coelho, como queiram, esteve em Tóquio em outubro de 1995, para promover o lançamento do seu livro O Diário de Um Mago, editado no Japão pela Jyusha Publisher Company.

Ao desembarcar em Tóquio naquele outono, Paulo Coelho já era celebridade mundial e vendido mais de 10 milhões de livros (hoje passa dos 350 milhões, segundo pesquisa na net) dos quais, 30 mil exemplares de O Alquimista, no Japão, e entrou na lista dos mais vendidos do Asahi Shinbum.

Paulo Coelho me recebeu no dia do desembarque, assim que chegou ao Hotel Tokyo Garden, e falamos no lobby durante mais de uma hora. Foi com exclusividade. A entrevista saiu na edição de 21 de outubro de 1995, do Jornal Tudo Bem (foto abaixo). Fiquei feliz por conseguir esse furo sobre a concorrência, pois eu era novato e chegara ao Japão havia apenas três meses.

MAGO DE CASA NÃO FAZ MILAGRES

Criticado no Brasil, aclamado no exterior, uma das perguntas ao Paulo Coelho foi:

– Se você tivesse nascido na Idade Média, teria medo de morrer queimado na fogueira como bruxo, mago, charlatão ou escritor de sucesso?

Paulo Coelho respondeu:

Essa Inquisição continua, no sentido de que ainda sou bastante criticado pelo meu sucesso. Mas é normal, porque sempre que uma ideia revolucionária aparece, ela é imposta com bastante reação dos contrários. Isso não me incomoda nem me dá medo de ser “queimado”. Basta ler algumas biografias de personagens que trouxeram novas ideias e eles sempre enfrentaram esse problema.

Fiz duas perguntas de fã, pois, admirador de Ernest Hemingway e Raul Seixas, não poderia deixá-los de lado:

– Qual a semelhança entre os dois Santiagos, o do Alquimista e de O Velho e o Mar? E fale um pouco sobre a sua convivência com Raul Seixas!

O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, me seduziu porque começava com a primeira frase: “O velho se chamava Santiago” e no restante dos capítulos ele chamava apenas de ‘o velho’. Usei isso no Alquimista, iniciando com ‘o jovem se chamava Santiago’ e no decorrer do livro não menciono mais o nome. Em O Velho e o Mar, o Santiago pescador luta com um enorme peixe, tendo pela frente o seu caminho, que era o desafio do mar bravio. Acho que isso espelha muito bem a luta e a perseverança de alguém que deseja alguma coisa e tem que brigar por ela.



– E sobre o Raul Seixas?

Eu tinha escrito um artigo para um jornal, sobre discos voadores. Raul leu, gostou e me procurou para conversar. Praticamente ele me forçou a entrar no meio musical, pois no começo resisti muito. Nossa criação foi muito intensa e produtiva. Hoje, depois de 20 anos, nossas músicas continuam tocando, com maior sucesso e isso é fruto de um trabalho muito integrado. Eu fazia as letras e Raul colocava as melodias. Quem sabe um dia posso voltar para a música.

Pedi ao Paulo Coelho para explicar melhor o que seria a fraternidade que seus livros tanto pregam!

Não sei explicar, está na consciência de cada um. Mas posso te mostrar uma passagem que escrevi na coluna Maktub, quando o pacifista indiano Mahatma Gandhi (foto abaixo) correu para pegar o trem e uma de suas sandálias escapou. Com o trem em movimento, Gandhi então tirou o outro pé de sandália e a jogou pela janela. Perguntado sobre o porquê desse gesto, ele respondeu que alguém encontraria a sandália, mas não poderia usá-la por falta de outro pé. Dessa forma, melhor seria deixar o par completo. Eis um exemplo de fraternidade.



No dia seguinte, enquanto redigia a entrevista, mandei revelar os negativos (Ainda não estávamos na Era Digital). Horas depois, o editor me chamou:

– Ô Arashiro!!! Essas fotos do Paulo Coelho me parecem tremidas hem!!!

Na verdade, quem tremeu fui eu, diante da idolatria pelo Paulo Coelho e sua parceria musical com Raul Seixas! Enquanto eu redigia a entrevista, ainda ecoavam nos meus ouvidos aquelas canções da dupla: Al Capone; Medo da Chuva; Sociedade Alternativa; Loteria da Babilônia; Gita; Tente Outra Vez; Rock do Diabo; Como Vovó Já Dizia; Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás …

– Ô Arashirooo!!! Tá me ouvindo?

– Ah! OK, chefia! Vamos ver essas fotos já já …

Quando tirei as fotos do Paulo Coelho, queria que ele estivesse diante de algum letreiro em japonês, para mostrar que ele estava no Japão. Então pedi para ele ficar diante do letreiro em neon, escrito na grafia katakana: Hotel Tokyo Garden. E a foto saiu assim, meio sinistra:



Gentilmente Paulo Coelho se levantou e fomos para a calçada, diante do letreiro de neon. Mas esqueci de ligar o flash da câmera. Sorte que a luz neon deu um efeito de iluminação, deixando o escritor com um misto de obscuro e estroboscópico.

– Que nada chefia!!! A foto não está tremida não! Esse foi um efeito que bolei na hora, um Paulo Coelho meio bruxo, esotérico, transcendental, das trevas para o Oriente!!

– É mesmo, Arashiro!! Legal!!! Publica essa foto …


OSNY ARASHIRO – Jornalista, no Japão desde 1995, cobriu Copa do Mundo (França 1998, Japão/Coreia 2002) e 15 Mundiais de Clube. Metaleiro, roqueiro, pagodeiro e outros “eiros” e, claro, Dylaniano/Dylanesco… e Raul Seixas

mail: [email protected]

Japão Aqui e o brasileiro cada vez mais “japonês”. De refugiado econômico a imigrante nipo-brasileiro, fizemos o caminho inverso dos japoneses que atravessaram oceanos após a segunda guerra mundial.

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