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O sem-teto e o novo-pobre

Ao cobrir passeatas de brasileiros e japoneses no dia Primeiro de Maio, tomei conhecimento da expressão “waakingu pua” – o trabalhador pobre

Às vésperas do Natal, voluntários do Grupo Esperança da Igreja Católica de Hamamatsu organizavam um almoço de confraternização para os moradores sem-tetos. Alugavam ônibus para buscá-los no centro da cidade, depois seguiam para o Centro Paroquial onde era servido o banquete.
Em duas ocasiões, acompanhei esses moradores e subi no mesmo ônibus até o Centro Paroquial, para fazer reportagem. Alguns deles me olhavam pelo rabo dos olhos, talvez pensassem que eu fosse um novo sem-teto.

    Almoço no Centro Paroquial reúne moradores necessitados

Porém, com a pandemia do coronavírus, o almoço de confraternização deste ano foi cancelado. Que triste! Pelo menos o Grupo Esperança mantém a tradição de mais de duas décadas ininterruptas, oferecendo sopão aos sem-tetos, todos os sábados, perto do terminal de ônibus de Hamamatsu.



    Fila do sopão foi idealizado pelo Padre Higa (foto) em 1994

 

O Ministério da Saúde, Trabalho e Bem Estar do Japão divulgou em janeiro de 2020 uma pesquisa que contabilizou 3.992 sem-tetos em todo o Japão, indicando uma queda de 12.4% em relação ao ano anterior.
Tais números sempre provocam desconfianças, principalmente de entidades beneficentes, pois alegam que a pesquisa é realizada durante o dia, período no qual os sem-tetos somem dos parques e só retornam à noite para dormir.

 Moradores de rua em Hamamatsu recebem ajuda de voluntários brasileiros

A pesquisa também não inclui os chamados refugiados de café internet, aqueles moradores que vivem nesses café-mangás com diárias baratas, por não conseguirem arcar com aluguel de um apartamento.

                                     

       WORKING POOR, O TRABALHADOR POBRE

Foi num dia Primeiro de Maio, ao cobrir passeatas de japoneses com uma ala para trabalhadores brasileiros, que descobri uma nova categoria de pobreza.
Havia jovens enfermeiras reivindicando melhores condições de trabalho e horários mais flexíveis. Os brasileiros reivindicavam melhores salários e estabilidade no emprego. Um manifestante brasileiro sempre me dizia: “o dia 1º de maio não é um dia de festa, mas um dia de luta.”

                 Passeata de 2008 pedia o fim do “trabalhador pobre”

Nessas manifestações, as diferenças de nacionalidades e idiomas se uniam em favor do trabalhador. Foi quando ouvi pela primeira vez a expressão “Pelo fim do waakingu pua”, gritavam ao megafone os manifestantes japoneses.

Perguntei ao líder sindical qual o significado daquela expressão “waakingu pua”. Então ele me explicou que era uma corruptela do inglês, working poor (trabalhador pobre). Mesmo trabalhando, o cidadão leva uma vida apenas remediada, para não dizer miserável, devido ao baixo salário que recebe.

Fica difícil imaginar que tal pobreza exista no Japão, o terceiro país mais rico do mundo. Porém fica fácil entender quando os pobres saem às ruas bradando pelos megafones. A camuflagem social é desfeita. Ser um working poor significa viver abaixo da linha da pobreza, recebendo cerca de ¥ 1,22 milhão por ano.
Tal índice foi estabelecido no Japão em 2012, um valor que representava naquele ano cerca de metade da renda familiar média. Na ponta do lápis, significa viver com cerca de ¥ 100 mil por mês. Esses trabalhadores são incapazes de obter um sustento decente, enquanto mantêm um emprego, ou mesmo dois.

Com renda mínima, o cidadão prefere não casar nem ter filhos, ajudando a incrementar o baixo índice de natalidade no Japão.

Com o passar dos anos, a expressão working poor ganhou novo derivado e a mídia veio com a corruptela nyu pua (new poor, o novo-pobre). São os mesmos trabalhadores não efetivados, os conhecidos arubaitos, freeteers, entre outros, que fazem apenas bicos.

Destituídos de todos os benefícios sociais do governo do Japão, esses trabalhadores não possuem nenhuma proteção de mercado, eles são:

– Sem cobertura de seguro social
– Sem sindicato
– Sem seguro desemprego
– Sem pagamento igual para igual valor de trabalho
– Recebem salário mínino

Segundo uma pesquisa da Secretaria de Estatísticas do Japão, entidade ligada ao Ministério dos Assuntos Internos e Comunicações, as razões para ser um trabalhador não regularizado são:

– Trabalhar no horário que lhe convêm
– Para completar a renda familiar ou ajudar na despesa escolar
– Para trabalho doméstico, criação de crianças ou cuidados de enfermagem
– Para um curto período de deslocamento
– Para utilizar habilidades especiallizadas
– Por não obter emprego como trabalhador regularizado

Do total de 50,61 milhões de trabalhadores do Japão (excluindo executivos de empresas) o número de empregados regulares totaliza 35,37 milhões, enquanto os não regulares são 20,64 milhões – uma redução de 1,25 milhão em relação ao ano de 2019, segundo pesquisa divulgada no dia 1 de dezembro, pelo Ministério dos Assuntos Internos e Comunicações do Japão.

Esses números “oficiais” ajudam a entender o empobrecimento do povo japonês. Durante a bolha econômica do Japão na década de 80, os trabalhadores não efetivados eram menos de 20% da força de trabalho. Mas a partir da década de 90 o cenário passou a mudar com a crise econômica. As empresas tiveram de cortar funcionários efetivados e admitir os part-timers, trabalhadores de custos mais baixos.

                   Morador vive em barraca no centro de Hamamatsu

Freeters ou Furita é um termo para definir os jovens (entre 15 e 34 anos) em trabalhos de curto ou meio período, ao invés de carreiras profissionais e assalariados de longo prazo.

Furita entrou em uso pela primeira vez em 1987 e combina a palavra inglesa FREE (livre) com a alemã ARBEITER (trabalhador) que também deu origem à palavra arubaito.

O conceito do emprego vitalício no Japão surgiu durante o período pós-guerra, mas com a recessão a partir dos anos 90, as demissões começaram. Aquele que arranja o primeiro emprego e nele se aposenta, pode se considerar com muita sorte.

Atualmente, com a pandemia do corona vírus, surge nova classe de vulneráveis, porém, a economia vem mostrando sensível melhoria.

O Japão é o país dos kenshuseis (estagiários estrangeiros de baixa remuneração), dos arubaitos, dos paato (part-timer), dos furitas. O Japão é o país do dekassegui e o contrato de trabalho renovável a cada três meses!! Que pai de família pode traçar planos com seus filhos, se ele próprio não sabe se estará empregado no próximo trimestre?

 

Jornalista, no Japão desde 1995, cobriu Copa do Mundo (França 1998, Japão/Coreia 2002) e 15 Mundiais de Clube. Metaleiro, roqueiro, pagodeiro e outros “eiros” …

mail: [email protected]

Japão Aqui e o brasileiro cada vez mais “japonês”. De refugiado econômico a imigrante nipo-brasileiro, fizemos o caminho inverso dos japoneses que atravessaram oceanos após a segunda guerra mundial.

Em 2007 após atingir a marca de 316.000 brasileiros oficialmente residentes no Japão o “Lehman shock” em 2008, esvaziou nossa comunidade em cerca de 140.000 pessoas, nos anos que se seguiram. Hoje em 2019, voltamos a crescer atingindo a marca de 193.798 brasileiros residentes (junho-2018 / Ministry of Internal Affairs and Communications).

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