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O que aconteceu com o vereador?

Marcelo Akira Nagashima, vereador sequestrado em Rio Grande da Serra-SP, animava os pagodes, carnavais e virada do ano em Hamamatsu

Amigos residentes no Brasil me enviaram links de vídeos noticiando o desaparecimento e o resgate do vereador Marcelo Akira Nagashima, que por mais de 15 anos residiu em Hamamatsu. Aos 43 anos, o recém-eleito vereador pelo partido PODE, recebeu 393 votos no município de Rio Grande da Serra-SP. Foi o sétimo mais votado nas recentes eleições de novembro.

Marcelo Akira foi sequestrado após sair de uma reunião com o prefeito eleito, na noite do dia 18 de dezembro. Ao entrar em seu carro, foi abordado por um homem armado já sentado no banco traseiro. Ele ordenou que Marcelo seguisse até uma pedreira numa área da Zona da Mata.


Marcelo Akira, durante o Pagode da Virada 2008 em Hamamatsu

O que parecia ser um assalto, ganhou ares de sequestro mas em seguida quase virou execução. Por sorte, a arma falhou e nesse momento, Marcelo aproveitou e saiu correndo do veículo, se embrenhando mata adentro.

A pouca bateria no seu celular permitiu um rápido contato com sua esposa Cynthia, que imediatamente acionou a polícia. Cães farejadores e um drone também trabalharam no resgate do vereador.

Foram mais de 15 horas de drama até Marcelo ser encontrado no dia seguinte, em estado de choque, desorientado, debilitado e sujo de barro. Ele foi levado por uma ambulância a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

A polícia mantém sigilo para não atrapalhar as investigações, mas para muitas pessoas do convívio do vereador, o sequestro pode estar ligado a uma série de denúncias que Marcelo divulga nas redes sociais contra a administração da cidade. (link para o vídeo da reportagem no Brasil está no rodapé desta página)


PAGODE DA VIRADA

Do meu convívio fazendo reportagens com o então Marcelinho da Batucada, como era chamado em seus tempos de Hamamatsu, guardo boas e más lembranças. Ficarei apenas com as boas lembranças, porque assim devemos levar a vida!

Um dos grandes eventos que Marcelinho organizou foi o Pagode da Virada do Ano, no calçadão da Galeria Mall, ao lado do Entetsu onde ficava a árvore de natal gigante. Foram duas viradas do ano, 2008 e 2009.

Pagode da Virada 2008: apesar do frio o público comparecia


O público comparecia em grande número, apesar do frio. Mas tinha quentão grátis, fazendo da virada do ano uma quase festa junina. Também tinha vinho quente, pastel e espetinho.

Aquele pagode aconteceu justamente quando explodiu a crise do final de 2008, provocada pela quebra do Lehman Brothers. Num momento de incertezas econômicas, o mestre de cerimônia, Marcelinho da Batucada, disse que 2009 pelo menos o brasileiro começou do jeito feliz, com muito samba.

NATAL DA CRISE

Naquele mesmo ano de 2008, Marcelinho da Batucada também foi o mestre de cerimônias da 18ª edição Feliz Natal, realizado no Act City de Hamamatsu. Cerca de 3 mil pessoas compareceram ao evento realizado no dia 14 de dezembro. O ponto alto da festa foi a distribuição de brindes e sorteios, além da presença de Papai Noel que fez a alegria de crianças e adultos com presentes.

Papai Noel distribui presentes no Natal da Crise em Hamamatsu

Naquela ocasião, publiquei matéria sobre esse evento natalino no site ipcdigital. Como estávamos em crise do Lehman Brothers, lembro de um comentário irado, no site, de um leitor que assinava com o pseudônimo de Condor, falando sobre a crise do momento:

Quem não gastou tanto com bobagens, como a ilusão de pensar que ter luxo ou coisas caras faz de você uma pessoa melhor do que as outras, sendo que você ainda trabalha como peão em fábricas!!! Pagar TV por satélite é bobagem, pra quem está temporariamente aqui. Primeiro porque é caríssima, principalmente em relação ao tempo que você assiste, que é só de vez em quando. Segundo, a qualidade dos programas, que não lhe instrui, não te ajuda e nem te informa com profundidade!!! Simplesmente só distraem. E aos que ficaram distraídos e hoje estão embaixos da ponte, a culpa é de quem? É de quem gosta de ter carrão, de sair na balada e gastar sem medida, de comprar tudo isso que a propaganda lhe engana, de quem esqueceu que é pobre e só porque começou a ganhar bem, pensa que é rico! A culpa é sua, idiota!

Marcelo Akira (dir.) Mestre de Cerimônias na Festa de Natal

SAMBA PARA DEFICIENTES AUDITIVOS

Um dos eventos mais inusitados que presenciei do grupo Batucada foi um show de samba para japoneses deficientes auditivos, realizado no Hotel Concorde dia
26 de junho 2010.

Apesar da pouca ou quase nada audição, os deficientes se entusiasmavam com as vibrações dos sons, com as passistas sorridentes sambando em meio ao público. Num dado momento, elas ensinaram alguns passos de samba e a alegria dos foliões estava estampada em seus rostos.

Passista Cynthia (esq.) ensina passos de samba para os japoneses


PAGODE DA DESPEDIDA

Em 2011, Marcelinho anunciou para a comunidade que estava retornando ao Brasil. No dia 6 de fevereiro realizou um dinner show de despedida na disco Young-Adult

Marcelinho disse que gostaria de tentar a vida no Brasil fazendo o que sempre fez no Japão, “o samba pra japonês ver” em festas de casamentos, bonenkai de empresas, matsuris entre outros. Seu público alvo seriam os japoneses lá residentes, entre empresários e funcionários de multinacionais. “Lá no Brasil, os japoneses vão gostar de ver um brasileiro sambista falando Minasan, nihongo 5% dake, porque da mesma forma que sentimos saudades do Brasil, eles sentem do Japão”, disse.

Marcelinho da Batucada no Pagode da Despedida

Para Marcelinho, o papel do samba é entreter e integrar o Brasil com o Japão. Apesar dos seus “cinco por cento de idioma japonês”, ele tentava divulgar o melhor da arte brasileira. E também cantava em japonês o sucesso de Tsuyoshi Nagabuchi, Kanpai, e Shima Uta, de Kazufumi Miyazawa (The Boom) arrancando aplausos dos japoneses.

Porém, aos amigos mais chegados, Marcelinho revelou a dor do seu drama familiar. Ele já havia perdido um irmão, quando transportava dinheiro da empresa e foi vítima de assaltantes. E no começo de janeiro de 2011, perdeu outro irmão também em circunstâncias trágicas. Marcelinho então decidiu voltar ao Brasil para fazer companhia à mãe que ficou sozinha e abalada.

Por sorte, desta vez o vereador escapou com vida! Nenhuma mãe merece sepultar um filho, muito menos três.

Vaja o video da reportagem no Brasil
https://www.youtube.com/watch?v=3Psy1AZ8ipE&feature=youtu.be

 

 


OSNY ARASHIRO – Jornalista, no Japão desde 1995, cobriu Copa do Mundo (França 1998, Japão/Coreia 2002) e 15 Mundiais de Clube. Metaleiro, roqueiro, pagodeiro e outros “eiros” …

email: [email protected]

Japão Aqui e o brasileiro cada vez mais “japonês”. De refugiado econômico a imigrante nipo-brasileiro, fizemos o caminho inverso dos japoneses que atravessaram oceanos após a segunda guerra mundial.

Em 2007 após atingir a marca de 316.000 brasileiros oficialmente residentes no Japão o “Lehman shock” em 2008, esvaziou nossa comunidade em cerca de 140.000 pessoas, nos anos que se seguiram. Hoje em 2019, voltamos a crescer atingindo a marca de 193.798 brasileiros residentes (junho-2018 / Ministry of Internal Affairs and Communications).

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