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Kemari, a origem do futebol

O ancestral do futebol, com 1.400 anos de tradição, ainda é praticado nos templos de Quito e Nara, em ocasiões festivas

Há um ano, dia 24 de janeiro, participei da cerimônia de abertura da Exposição de Fotografias finalistas do 1° Concurso de Fotografia do Consulado-Geral do Brasil em Tóquio. A mostra fez parte das celebrações dos 30 anos da presença brasileira no Japão com o Movimento Dekasegui.


Foto na mostra da Embaixada do Brasil: exibição de Kemari no Tanzan Jinja, em Nara

O evento foi realizado na Embaixada do Brasil em Tóquio e contou com uma rara presença de todos os três cônsules do Brasil no Japão, além do embaixador.


Na ocasião encontrei o amigo Gilberto Yoshinaga prestigiando o evento. E quando inaugurei esse blog em novembro de 2020, ele sugeriu que eu escrevesse sobre Kemari para divulgar as raízes do futebol, de acordo com as explicações que fiz naquela exibição.


Osny Arashiro na Embaixada do Brasil com o amigo Gilberto Yoshinaga


Então vamos lá!! Explico aqui a história do Kemari, reconhecido pela FIFA como sendo a origem do futebol.
As fotos participantes da exibição só tinham o nome do autor e do tema, sem nenhuma explicação. Então passei boa parte do tempo explicando o que seria Kemari. Perguntavam se a bola era uma bexiga, se os monges eram bonecos e até o Cônsul Ernesto Rubarth, fanático torcedor do Inter de Porto Alegre, perguntou de brincadeira se o vermelho era o uniforme do Colorado!

Pelo visto, nem sempre uma foto vale mil palavras!

Kemari é originário da China e chegou ao Japão há pelo menos 1.400 anos, durante a Reforma Taika (ano de 645) junto com o budismo. Na China era chamado de Cuju, pela leitura em mandarim, com o mesmo significado.


Atualmente, apenas monges mantêm viva a tradição do Kemari

Kemari (蹴鞠) é a junção dos ideogramas Ke (chutar) e Mari (bola) na leitura japonesa. Então “chutar bola” é semelhante à palavra futebol, do inglês, foot (pé) e ball (bola).

O Kemari antes de tudo é um ritual religioso

Com cerca de 20 cm de raio e 150 g, a bola é confeccionada de pele de veado. Não há vencedor nem perdedor neste jogo exibição, muito menos gol, pois é um ritual aos Deuses. Lembra a nossa conhecida embaixadinha. O objetivo é manter a bola sem cair ao chão o mais tempo possível.

Bola é confeccionada com pele de cervo

A regra é clara! Pode chutar apenas com o peito do pé direito, não pode chutar com a sola do pé. Ao passar a bola para o companheiro, deve-se entoar Ari, Yau e Ou, nomes simplificados das divindades Geanrin, Shunyoka e Toen, respectivamente.

O TEMPLO DO FUTEBOL

Há muitos anos ouvia falar sobre o kemari, mas para mim se limitava a gravuras de museus, até descobrir que a prática desse ritual é preservada em alguns templos de Quioto e Nara.

Sim! O Templo do Futebol existe! E não é o Maracanã, para os brasileiros, nem Wembley para os britânicos.

Shiramine Jingu, em Quioto, o Templo do Futebol para a “reza brava”


Então segui para Quioto em busca das origens do futebol (fiz duas viagens, em novembro de 2012 e abril de 2018). Ao norte da cidade, no bairro Kamigyo, fica o Shiramine Jingu, um templo xintoísta construído em 1868, dedicado a Seidai Myojin, a divindade protetora do kemari. Mas nos tempos atuais, foi adotada por todos os esportes.

Este blogueiro no Tanzan Jinja, em Nara

Muitos jogadores profissionais e jovens aspirantes ao profissionalismo e a títulos, comparecem ao Shiramine Jingu para o omairi (visita ao templo para fazer orações) e registrar seu sonho de realização no ema – pequena placa de madeira na qual se escreve um pedido e deixa pendurado como oferenda ao templo.

A prática do Omairi, a oração no templo

No altar principal, joga-se moedas, puxa o cordão e faz-se a oração. No recinto ao lado, dezenas de bolas oferecidas pelos visitantes, deixam a marca de suas preces. São bolas de futebol, beisebol, vôlei, basquete e até rúgbi.

Bolas de todos os esportes são deixadas no templo como dádiva aos Deuses

Numa das paredes estão fixados autógrafos dos brasileiros Ruy Ramos e Alcindo, que brilharam no futebol da J-League (foto abaixo)

 

No Monumento ao Kemari (foto abaixo) há uma bola de pedra. Ao fazer um pedido, deve-se bater palmas duas vezes, abaixar a cabeça em reverência ao Seidai Myojin e girar a bola uma vez, mas cuidado para não prender os dedos.



Também fiz minha oração desejando sucesso ao futebol e aos esportistas brasileiros. Mas ainda não tinha visto uma exibição de Kemari. Por sorte, haveria uma demonstração no Tanzan Jinja de Nara, na cidade de Sakurai. Segui para lá no dia seguinte.

Tanzan Jinja, em Nara

O Tanzan Jinja é um templo xintoísta encrustado entre vales, no Monte Tonomine. Foi construído no ano 678 e dedicado a Fujiwara Kamatari (614 – 669) um importante articulador da Reforma Taika, com base nos modelos da China e do Confucionismo. Nesse templo o Kemari Matsuri é realizado no dia 29 de abril e no segundo domingo de novembro.


Ao início do ritual, os shinshoku (sacerdote xintoísta) fazem uma oração com oferendas aos Deuses. Os oito jogadores-sacerdotes (foto abaixo) se posicionam em campo, eles são os mariashi (mari: bola; ashi: pé) e vestem um quimono vistoso chamado kariginu.



A bola é conduzida ao campo encaixada em um galho de árvore da época (foto abaixo). O campo oficial é chamado de kikutsubo ou kakari e em cada canto deve-se plantar uma árvore: sakura (cerejeira) no canto nordeste; yanagi (salgueiro) ao sudeste; kaede (bordo japonês) a sudoeste e matsu (pinheiro) a noroeste, cada qual representando respectivamente as estações do ano, primavera, verão, outono e inverno.



Durante o Período Kamakura (1185-1333) o Kemari ganhou popularidade entre os samurais e no Período Edo (1603 – 1867) passou a ser praticado pelo povo comum, tornando- se o “esporte do povo”.


Em meados do século 19, a popularidade caiu a ponto do Imperador Meiji criar a Associação de Preservação do Kemari, para manter o esporte vivo ao menos em ocasiões festivas.

 


Após assistir ao Kemari, fiquei imaginando o Japão, com 1.400 anos de tradição, por que ainda se enquadra nos países emergentes do futebol? Por que o título de Reis do Futebol foi para o Brasil, do outro lado do mundo?
Nem sempre a “criatura” pertence ao “criador”. O futebol praticado hoje foi inventado pelos ingleses, por isso é chamado de Esporte Bretão, no entanto, eles também não são os Reis do Futebol. O futebol pertence ao mundo!

OSNY ARASHIRO – Jornalista, no Japão desde 1995, cobriu Copa do Mundo (França 1998, Japão/Coreia 2002) e 15 Mundiais de Clube. Metaleiro, roqueiro, pagodeiro e outros “eiros” …

Japão Aqui e o brasileiro cada vez mais “japonês”. De refugiado econômico a imigrante nipo-brasileiro, fizemos o caminho inverso dos japoneses que atravessaram oceanos após a segunda guerra mundial.

Em 2007 após atingir a marca de 316.000 brasileiros oficialmente residentes no Japão o “Lehman shock” em 2008, esvaziou nossa comunidade em cerca de 140.000 pessoas, nos anos que se seguiram. Hoje em 2019, voltamos a crescer atingindo a marca de 193.798 brasileiros residentes (junho-2018 / Ministry of Internal Affairs and Communications).

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