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K.Y. a regra não escrita de comportamento no Japão

No Japão é costume tirar os sapatos antes de entrar em casa. Mas tem gente que coloca os pés calçados no banco do trem! Nem todas as normas de boas condutas sociais estão escritas. Em certas ocasiões, é preciso ter o bom senso do “semancol”





Estava tomando um cafezinho com minha amiga Kana-chan em uma cafeteria tranquila. Então chegou um grupo de estrangeiros falando alto. Ao se acomodarem na mesa, também conversavam alto! Ao fazerem o pedido na fila, perguntavam ao restante na mesa do outro lado em voz alta, “vai querer açúcar?” A casa toda ouvia! O silêncio foi quebrado enquanto eles estavam lá. Os clientes olhavam pelo “rabo dos olhos”, enfim, no Japão é assim mesmo.

Foi quando Kana-chan me explicou a expressão K.Y. (quei-uai, da pronúncia inglesa). Trata-se da abreviação da palavra Kuuki Yomenai ou então Kuuki Yomimasen e significa “não ler o ar, o ambiente” no sentido de chegar em um local e não saber se comportar de acordo com a situação do momento. É o nosso conhecido “semancol”. Essa expressão é utilizada no Japão geralmente pelos jovens, quando trocam mensagens pelos smartphones e se referem a uma certa pessoa sem comportamento adequado, então abreviam para K.Y.

Também é utilizado no sentido imperativo para uma determinada pessoa, Kuuki Yome!(leia o ambiente!), “se toca”, para uma situação de falta de senso comum, especialmente nos encontros sociais, com maus modos em locais públicos ou mesmo na mesa de jantar com a família!

Não se trata somente para atitudes, mas também para conversas rudes, comentários agressivos, embaraçosos, a falta de decoro. Levando em conta que o Japão é um país muito formal, o K.Y. é uma aspecto muito importante na convivência social.

Na verdade, não existe um código de regras por escrito, basta ter bom senso. Desde aquele dia em que aprendi o significado de K.Y. passei a ser um observador mais rigoroso comigo mesmo e com os outros!

Apesar de muito cansado, você concorda em dormir sentado na plataforma de metrô, como fez essa pessoa da foto? A foto abaixo tirei na Estação Roppongi, da linha Hibiya, às dez horas da manhã!



Outro dia vi um cartaz escrito em bom português (e japonês) nas estações e dentro do Akaden, o Trem Vermelho de Hamamatsu. O apelo era para se comportar com gudo manna, a palavra derivada do inglês, good manners (boas maneiras). O apelo era para evitar o uso do celular, ceder o assento aos idosos e deficientes, manter o ambiente limpo e evitar falar em voz alta. Nada impossível de fazer (foto abaixo).



Certa ocasião, em Tóquio, embarquei no trem da linha Yamanote (mais de 4 milhões de passageiros trafegam diariamente por essa linha). Não era horário de rush, havia poucos passageiros, mas quando a porta abriu, tive de dar um salto para entrar, pois na porta, deitado no corredor, estava um jovem com fones de ouvido (foto abaixo).



A cada parada nas estações, os passageiros tinham de pular por cima do folgado, para entrar ou sair do trem. Havia o perigo do jovem cair para fora do trem, cada vez que a porta abria, provocar um acidente.

Ao descer na estação Tokyo, procurei um guarda na plataforma, mas não encontrei nenhum. Havia um balcão de informações e para lá me dirigi e informei a moça. Vagão número 5, porta número 4. A moça imediatamente avisou os seguranças e eu segui meu caminho.

Tempos atrás, vindo de Toyohashi, peguei o trem da linha Tokaido. Numa determinada estação entra um jovem estudante e pelo uniforme que vestia, identifiquei nacionalidade e a escola (mas não vem ao caso revelar nacionalidade, porque o mal comportamento acontece em todas as sociedades).

Enquanto o menino falava em seu celular, colocou ambas as pernas no banco da frente, como se estivesse no sofá de casa. Discretamente peguei meu celular e tirei algumas fotos para mostrar aos amigos e aqui estão!



No Japão, onde é costume tirar os sapatos para entrar em casa e lá vem o rapaz colocando os pés sobre o banco do trem!!! Qualquer cidadão consciente sabe distinguir um assoalho de trem com sofá da sala de casa, não é não?




No verão, como ninguém é de ferro, saio com os amigos para um café, uma cervejinha e jogar conversa fora. Um dos locais preferidos são as mesinhas do calçadão no centro.

Num final de tarde, os amigos me esperavam numa dessas mesas. Quando eu ia atravessar a avenida, o farol para pedestre ficou vermelho! Mas vi um rapaz atravessar e ainda olhou para trás para ver se outros também o seguiam. Nenhum pedestre atravessou no vermelho, só ele.

Depois, ao me aproximar da mesa dos amigos, reparei que aquele rapaz que atravessara o farol no vermelho estava com meus amigos e comentava: “que lugar legal, será que o garção atende bem a gente aqui, não discrimina estrangeiro, posso sentar com vocês?”

Então eu disse ao rapaz:

– Ô gente boa! Você pode sentar com a gente, claro! Mas se algum japonês algum dia te discriminou, pode ter certeza que o motivo foi por você não respeitar as regras do Japão e nem todas as normas são escritas, o que vale é o bom senso!!

– Por que você está falando isso pra mim?

– Por que vi agora mesmo você atravessar a rua no farol vermelho para pedestre! Você não costuma respeitar as regras, né?

O cara ficou sem graça, deu meia volta e foi embora!

Um amigo, dono de agência de turismo, me disse que instruía os turistas brasileiros com apenas três palavras para quando desembarcassem no Japão! E bastavam para ser bem tratados: sumimasen (com licença! desculpa!), onegaishimasu (por favor!), arigatou (obrigado!).


OSNY ARASHIRO – Jornalista, no Japão desde 1995, cobriu Copa do Mundo (França 1998, Japão/Coreia 2002) e 15 Mundiais de Clube. Metaleiro, roqueiro, pagodeiro e outros “eiros” …

mail. [email protected]

Japão Aqui e o brasileiro cada vez mais “japonês”. De refugiado econômico a imigrante nipo-brasileiro, fizemos o caminho inverso dos japoneses que atravessaram oceanos após a segunda guerra mundial.

Em 2007 após atingir a marca de 316.000 brasileiros oficialmente residentes no Japão o “Lehman shock” em 2008, esvaziou nossa comunidade em cerca de 140.000 pessoas, nos anos que se seguiram. Hoje em 2019, voltamos a crescer atingindo a marca de 193.798 brasileiros residentes (junho-2018 / Ministry of Internal Affairs and Communications).

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