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Farofeiros e Dersu Uzala

Que boa época do ano! Sim, somos farofeiros de beira de rio e mar! Gostamos de uma cervejinha, churrasquinho, um violão pra animar a festa e dezenas de fotos no Facebook, compartilhando a alegria do feriado prolongado.

Mas as placas estão lá, escritas em bom português, japonês e inglês. “Proibido estacionar, jogar lixo” (multa de ¥ 5.000) e alerta sobre o perigo das águas nesta época do ano.



O rio Miyakoda é o preferido do amigo Marcio (foto abaixo). Churrasqueiro dos bons, Marcio sabe escolher o bom corte, o preparo, o ponto e gosta de servir os amigos enquanto arranha seu sofisticado violão Yamaha.

Sempre toca Raul Seixas, mas de Maluco Beleza nada tem, muito menos de Cowboy Fora da Lei. Ele sempre dirige dentro da lei, sem estar alcoolizado.



Na hora de recolher as tralhas e voltar para casa, cadê o Marcio?

Então avistei o amigo além das árvores, recolhendo o lixo que os farofeiros vizinhos abandonaram (Não! Não foram brasileiros que deixaram o lixo!). Ele percebeu que a turma foi embora sem saco de lixo nas mãos e foi averiguar:

– Marcio!!! Por que está recolhendo lixo dos outros?

– Temos que deixar tudo limpo por aqui!

– Ah, tá!! Sempre vão comentar que foi brasileiro que abandonou lixo, né!!

– Não é por isso não! Independente da nacionalidade, temos que deixar o local limpo para quando o próximo chegar. Se a gente não preservar este local, não vai ter mais lugar para churrasquinho…

– E depois – prosseguiu Marcio – temos sempre que pensar no próximo que virá se divertir por aqui, temos que deixar o local limpo para eles também…



A turma olhou um para a cara do outro, surpresos! Então decidimos fazer o mutirão e ajudar a recolher o lixo alheio. Marcio levou o lixo queimável para sua casa e eu fiquei com as latinhas e garrafas.

Nesse dia Marcio ganhou muito mais respeito dos amigos. Confesso que me surpreendeu essa atitude dele!
Foi então que me recordei do filme Dersu Uzala, do Akira Kurosawa, de 1975, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O filme inspirado na vida real, toma como base o livro escrito pelo russo Vladimir Arsenyev, um explorador, cartógrafo e naturalista que serviu o Império Russo. Como oficial do exército, Arsenyev participou de várias expedições em locais ermos do oriente siberiano.



Assim conheceu o matuto caçador Dersu Uzala, que se torna seu guia e homem de confiança.
A expedição busca abrigo em uma cabana no meio do mato e no dia seguinte, antes de partir, Dersu Uzala, com seu linguajar rústico, pede mantimentos ao capitão:

– Capitão, arroz, sal, fósforos, me dar um pouco?

– Para que quer isso? Pergunta o capitão.

– Arroz, sal, fósforos, envolver na cortiça de videira, colocar na cabana.

– Mas pensa em voltar? Questiona o capitão.

– Por que voltar? explica Dersu. Outra gente vir! Encontrar comida seca; não morrer!

O capitão reflete sobre a situação e ordena ao soldado: traga fósforos, arroz e sal.



Mesmo o mais rudimentar dos matutos respeita a natureza e pensa no próximo que está por vir, por isso deixa mantimentos na cabana. Foi uma atitude semelhante que tomou o amigo Marcio, pensar no próximo. Mas ele nunca assistiu Dersu Uzala!



OSNY ARASHIRO – Jornalista, no Japão desde 1995, cobriu Copa do Mundo (França 1998, Japão/Coreia 2002) e 15 Mundiais de Clube. Metaleiro, roqueiro, pagodeiro e outros “eiros” …

Japão Aqui e o brasileiro cada vez mais “japonês”. De refugiado econômico a imigrante nipo-brasileiro, fizemos o caminho inverso dos japoneses que atravessaram oceanos após a segunda guerra mundial.

Em 2007 após atingir a marca de 316.000 brasileiros oficialmente residentes no Japão o “Lehman shock” em 2008, esvaziou nossa comunidade em cerca de 140.000 pessoas, nos anos que se seguiram. Hoje em 2019, voltamos a crescer atingindo a marca de 193.798 brasileiros residentes (junho-2018 / Ministry of Internal Affairs and Communications).

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